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A história e a personalidade do Rei Herodes.

 

 


A vida deste soberano, chamado pelos bajuladores de Herodes, o grande, ... é material suficiente para diversas tragédias ... tendo ele se apossado do poder com o apoio dos romanos e contra a vontade do povo, procurava angariar a simpatia de todos a qualquer custo. Mas, durante os 33 anos de seu reinado apesar das aparências de grandiosidade, o descontentamento do povo com ele aumentava.

O homem cruel e presunçoso, vítima contínua das paixões, e Herodes estava bem distante das questões religiosas tão caras aos judeus de seu tempo. As intrigas da corte, as mulher, as guerras e uma certa febre de construção absorviam-no por completo. Sob seu comando, o país readquiriu autonomia. Herodes mandou construir dezenas de fortalezas e embelezou várias cidades como uma quantidade enorme de edifícios em estilo ocidental. Com igual zelo, cuidou da construção de teatros, hipódromo, e santuários em um honra de seu protetor Augusto, e se dedicou à reconstrução do templo de Jerusalém. Esta última obra foi alvo de particular empenho do rei. Em sua mania de grandeza, e Herodes ansiava até ofuscar o esplendor de Salomão. Vangloriava-se do trabalho de decoração do templo, tarefa em que investira recursos enormes, transformando-o em uma das maravilhas do mundo. Contudo, nem com isso conseguiu a angariar a confiança de seus súditos.

Filho de um dignitário da Iduméia e de uma mulher de origem árabe, Herodes não tinha direito à coroa da Judéia. Como todos os usurpadores, era obcecado pela suspeita e via traições e conspirações por toda parte. Os Asmoneus, herdeiros da dinastia que ele suplantara, eram para Herodes objeto de constante temor e por isso ele procurava qualquer pretexto para se ver livre deles.

Teve influência fatal sobre o destino de Herodes o fato de sua mulher Mariana, a única pessoa no mundo a quem ele amava com sinceridade, ser princesa da estirpe dos Asmoneus. Nesta bela mulher, altiva e corajosa, vivia o espírito de seus antepassados guerreiros que haviam lutado pela independência do país. Ela não escondia seu desprezo com relação ao marido. Sua mãe, Alexandra, que se imiscuia com freqüência nos problemas de ambos, criava sempre novos temores na vida do desconfiado e Herodes.

Quando Alexandra, aproveitando a influência da rainha do Egito, Cleópatra, obteve o título de sumo sacerdote para seu filho de 17 anos, selou sem querer a condenação deste. Herodes percebeu que o jovem era cada vez mais amado pelos habitantes de Jerusalém e não suportou o tal constatação. Durante uma festa, numa noite do ano de 35 antes de Cristo, o irmão de Mariana foi afogado diante do rei. Apresentaram sua morte a todos como uma fatalidade, mas irmã e a mãe sabiam perfeitamente como tudo acontecera.

Em 30 a.C., Herodes desfrutava de uma é a estabilidade política e excepcional. Depois da guerra ática, que dera a Otaviano o poder máximo, o rei da Judéia granjeou uma autonomia política indesejável. A confiança e o apoio de Augusto garantiam-lhe a solidez do trono. No entanto, quanto mais se multiplicavam os sucessos diplomáticos de Herodes, mais sua vida privada se tornava insustentável. Em 29 a.C., seu drama familiar atingiu o ápice. O ódio de Mariana por Herodes manifestou-se de tal forma que ele começou a suspeitar que também ela tivesse participado de uma conjuração. Um dia, atiçado pelos parentes, Herodes, num ataque de ira, condenou à morte aquela a quem amava mais do que a qualquer outra pessoa no mundo. Amedrontados os juízes ratificaram sem objeções o veredicto do rei.

 

 

 

A caminho do patíbulo, Mariana demonstrou uma altivez extraordinária, não implorando piedade ao rei, nem quando sua mãe, aterrorizada pela idéia de poder ser envolvida, a renegou publicamente. A cena encheu de pavor todas as testemunhas dos últimos momentos de vida da rainha. O próprio Herodes conseguiu sobreviver àquele dia fatídico a duras penas. Quando tudo acabou, ele dava impressão de ter perdido o equilíbrio mental. Sentia-se perseguido pela visão da mulher assassinada, chamava-a continuamente, gritava, ordenava que a trouxessem à sua presença. Depois, durante muito tempo, embriagava-se até perder a consciência, passava noites em orgias, organizava loucas corridas de cavalos, mas o pesadelo não o largava. Sua saúde ficara tão precária que ele parecia próximo da morte.

Mas Herodes se recuperou e retornou à sua bacanal de homicídios com força redobrada. Mandou matar Alexandra, o marido de uma irmã e muitos outros parentes e cortesãos.

Quando Alexandre e Aristóbulo, os dois filhos que tivera com Mariana, regressaram a pátria depois de uma longa temporada em Roma, Herodes recebeu-os com alegria em um primeiro momento, mas, logo em seguida, passou a desconfiar também deles. Corroído pela suspeita, o rei jogou contra os filhos todas as cartadas que pôde: bilhetes anônimos, acusações, depoimentos arrancado do servos sob tortura ... e o jogo terminou com o enforcamento dos dois príncipes na Samária.

Os últimos anos de vida de Herodes foram particularmente tenebrosos. Embora o partido dos herodianos visse nele o monarca ideal, senão até o Messias, ele bem sabia que o ódio do povo por ele aumentava. Tais sentimentos com relação ao rei eram alimentados na população pelos fariseus, que boicotavam sistematicamente qualquer iniciativa de Herodes. Muitos deles foram mortos por terem previsto o declínio e iminente do soberano usurpador.

Portanto, é possível imaginar a perturbação deste rei de 70 anos diante da notícia de que três embaixadores estrangeiros pediam informações na cidade sobre um "Rei dos judeus", que acabara de nascer. Quem seria este enésimo pretendente ao trono? Que forças políticas se esconderia um por trás dele? Além disso, o que mais desagradava Herodes era ouvir falar pela primeira vez deste novo complô.

Pelas conversas daqueles forasteiros, Herodes ficou sabendo que se tratava de um menino tido como o Messias que deveria vir ao mundo. Não era a primeira vez que o velho monarca se encontrava diante de um atentado deste gênero ao seu régio poder. Por isso, logo entendeu que o momento de exigir decisão e rapidez. Informou-se junto aos sacerdotes sobre o lugar onde supostamente o Messias deveria nascer e, quando esses mencionaram Belém, encaminhou para os doutos orientar, pedindo a eles que mandassem informações detalhadas sobre o novo rei dos judeus. O fato de se cumprir as profecias bíblicas não preocupava mesmo Herodes. A mente turva do velho tirano arquitetava uma nova chacina.

Belém não diz estava muito da capital. ...

E Herodes esperou em vão notícias do menino, pois os forasteiros preferiram voltar à sua pátria por outro caminho, evitando Jerusalém. Vendo que seu plano falira, o rei decidiu pôr fim, de uma vez por todas, àquela provável ameaça. Destacou para Belém um pelotão de soldados com ordem de matar todos os meninos com menos de dois anos de idade. É difícil afirmar com que escrúpulo a ordem foi cumprida. Herodes certamente deve tê-la dado em absoluto segredo. Flávio Josefo, que escreveu a crônica daqueles anos, não menciona a matança de Belém. Por outro lado, ela pode ter parecido insignificante demais ao historiador, diante das inúmeras atrocidades cometidas pelo rei.

Seja como for, aquele que os assassinos procuravam estava longe da cidade, pois a pequena família da galiléia e foi refugiar-se logo após a partida dos sábios estrangeiros. ...  

 

 

Na primavera daquele ano, uma grave doença prendeu Herodes ao leito. Ele obcecado pela suspeita, persistiam dando ouvidos aos delatores, ao operava continuamente seu testamento ... a idéia de que o povo esperava o impaciência sua morte não lhe dava sossego. Quando lhe contaram que alguns jovens, instigados pelos rabinos, haviam mutilado no templo a águia dourada, emblema do poder de Roma, ordenou que fossem imediatamente presos e julgados com a maior severidade. Apesar de seus acharques, e Herodes quis estar presente ao processo: os acusados foram condenados à fogueira e o caso despertou uma onda de mal-estar em Jerusalém.

às vésperas da morte, Herodes foi transportado para Jericó, onde tentaram curá-lo com tratamentos terminais. Uma vez, sentiu dores tão fortes que quase o levaram ao suicídio e, com muito custo, foi salvo da morte. O alarido da criadagem chegou aos ouvidos do filho mais velho, que estava preso e, pensando que o pai estivesse morto, tentou convencer os guardas a soltá-lo. Mas os guardas contaram o ocorrido a Herodes que, tomado de ira, ordenou a imediata execução do filho. Cinco dias mais tarde, a morte chegou também para ele. A sua agonia foi terrível: praguejava sem cessar e, delirando, ameaçava novos massacres. Conta-se que no final da vida mandou matar um grupo de reféns de nobre estirpe para evitar que o povo se alegra-se com a sua morte, e fosse assim obrigado a derramar lágrimas. Mais tarde, o dia da morte de Herodes veio a ser dia de festa nacional para os judeus.

 

 

Do Livro: Jesus, mestre de Nazaré

Editora Cidade Nova

Autor: Aleksandr Mien

Pág. 46 a 51

 

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